{"id":231005,"date":"2026-07-31T02:00:00","date_gmt":"2026-07-31T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/staging.fundacioncarf.org\/?p=231005"},"modified":"2026-07-06T17:27:02","modified_gmt":"2026-07-06T15:27:02","slug":"san-ignacio-de-loyola-y-el-discernimiento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.fundacioncarf.org\/pt\/san-ignacio-de-loyola-y-el-discernimiento\/","title":{"rendered":"S\u00e3o In\u00e1cio de Loyola: o santo que ensinou a discernir a voz de Deus"},"content":{"rendered":"

No dia 31 de julho, a Igreja celebra S\u00e3o In\u00e1cio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e um dos grandes mestres da vida espiritual. O seu legado vai muito al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de uma ordem religiosa: deixou \u00e0 Igreja uma pedagogia para aprender a descobrir a vontade de Deus no meio da vida quotidiana.<\/p>\n\n\n\n

Num mundo repleto de ru\u00eddo, decis\u00f5es dif\u00edceis e incerteza, o discernimento inaciano continua a ser uma escola de liberdade interior. N\u00e3o se trata de um m\u00e9todo para adivinhar o futuro nem de uma t\u00e9cnica para resolver problemas, mas sim de um caminho de ora\u00e7\u00e3o que ajuda a reconhecer como Deus atua no cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa.<\/p>\n\n\n\n

Quem foi S\u00e3o In\u00e1cio de Loyola?<\/h2>\n\n\n\n

S\u00e3o In\u00e1cio de Loyola nasceu em 1491, em Loyola. Durante a sua juventude, sonhava com a gl\u00f3ria militar e a vida na corte. Tudo mudou em 1521, quando um proj\u00e9til de canh\u00e3o o feriu gravemente durante a defesa de Pamplona.<\/p>\n\n\n\n

A longa convalescen\u00e7a marcou um antes e um depois na sua vida. Sem romances de cavalaria para se entreter, come\u00e7ou a ler a vida de Cristo e algumas biografias dos santos que lhe ca\u00edram nas m\u00e3os. Essas leituras despertaram nele uma quest\u00e3o decisiva: por que raz\u00e3o alguns pensamentos lhe proporcionavam uma alegria profunda e outros apenas uma satisfa\u00e7\u00e3o passageira?<\/p>\n\n\n\n

Sem o saber, estava a iniciar o caminho que daria origem ao discernimento espiritual que mais tarde se concretizaria nos Exerc\u00edcios Espirituais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n

O que \u00e9 o discernimento segundo S\u00e3o In\u00e1cio?<\/h3>\n\n\n\n

A palavra \u00abdiscernimento\u00bb pode parecer complexa, mas S\u00e3o In\u00e1cio entendia-a de uma forma muito concreta: aprender a distinguir os movimentos interiores que nos aproximam de Deus daqueles que nos afastam d\u2019Ele.<\/p>\n\n\n\n

Durante a sua recupera\u00e7\u00e3o, descobriu que imaginar feitos militares lhe proporcionava uma satisfa\u00e7\u00e3o passageira, enquanto que contemplar a vida de Cristo ou o exemplo dos santos lhe deixava no \u00edntimo uma paz duradoura. Essa experi\u00eancia tornou-se o ponto de partida de todo o seu ensinamento espiritual.<\/p>\n\n\n\n

Anos mais tarde, o Papa Francisco explicou precisamente este epis\u00f3dio para mostrar como In\u00e1cio aprendeu a reconhecer a diferen\u00e7a entre a alegria passageira e a consola\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, que perdura e orienta toda a vida para Deus.<\/p>\n\n\n\n

\"Audiencia
Audi\u00eancia geral do Papa Francisco na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

A consola\u00e7\u00e3o e a desola\u00e7\u00e3o: dois elementos fundamentais da espiritualidade inaciana<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais conhecidas de S\u00e3o In\u00e1cio \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre consola\u00e7\u00e3o e desola\u00e7\u00e3o espiritual. A consola\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste simplesmente em sentir-se bem. \u00c9 uma experi\u00eancia interior que fortalece a f\u00e9, aumenta a esperan\u00e7a, nos impele a amar mais e nos aproxima de Deus, mesmo no meio das dificuldades.<\/p>\n\n\n\n

A desola\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, manifesta-se como escurid\u00e3o interior, des\u00e2nimo, perda de esperan\u00e7a ou afastamento da ora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o In\u00e1cio observou que ambos os estados fazem parte do caminho espiritual. O importante n\u00e3o \u00e9 evit\u00e1-los, mas aprender a reconhec\u00ea-los para tomar decis\u00f5es livres e orientadas para o bem.<\/p>\n\n\n\n

Exerc\u00edcios Espirituais: uma escola para descobrir a vontade de Deus<\/strong><\/p>\n\n\n\n

O fruto mais conhecido da experi\u00eancia de S\u00e3o In\u00e1cio s\u00e3o os Exerc\u00edcios Espirituais<\/em>, uma obra que, h\u00e1 quase cinco s\u00e9culos, ajuda milh\u00f5es de pessoas a aprofundar a sua rela\u00e7\u00e3o com Cristo. N\u00e3o se trata simplesmente de um livro para ler. Trata-se de um percurso de ora\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio, exame de consci\u00eancia e contempla\u00e7\u00e3o do Evangelho, que visa orientar a vida de acordo com a vontade de Deus.<\/p>\n\n\n\n

O objetivo final \u00e9 aprender a responder com liberdade \u00e0 pergunta que todo o crist\u00e3o se coloca, em algum momento: \u00abSenhor, o que queres de mim?\u00bb.<\/p>\n\n\n\n

O discernimento e a voca\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Toda a voca\u00e7\u00e3o nasce de um chamamento de Deus, mas tamb\u00e9m requer um cora\u00e7\u00e3o disposto a ouvir. Por isso, o discernimento ocupa um lugar essencial na forma\u00e7\u00e3o daqueles que sentem o chamamento ao sacerd\u00f3cio, \u00e0 vida consagrada, ao matrim\u00f3nio ou a qualquer forma de entrega crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n

Ouvir a voz de Deus requer sil\u00eancio, ora\u00e7\u00e3o, acompanhamento espiritual e uma forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida que permita distinguir entre os pr\u00f3prios desejos, as press\u00f5es externas e a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n\n\n\n

S\u00e3o In\u00e1cio compreendeu que as grandes decis\u00f5es n\u00e3o podem ser tomadas apenas com base na emo\u00e7\u00e3o do momento. Elas requerem uma liberdade interior que s\u00f3 Deus pode conceder.<\/p>\n\n\n\n

Um ensinamento muito atual para a forma\u00e7\u00e3o sacerdotal<\/strong><\/p>\n\n\n\n

A espiritualidade inaciana continua a ser particularmente valiosa para a forma\u00e7\u00e3o de sacerdotes e seminaristas<\/strong>. Um bom pastor n\u00e3o deve limitar-se a conhecer a doutrina da Igreja. Tem tamb\u00e9m de aprender a ouvir, a acompanhar e a ajudar as outras pessoas a descobrir a vontade de Deus nas suas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n\n\n\n

\u00c9 precisamente por isso que a forma\u00e7\u00e3o humana, espiritual, intelectual e pastoral se reveste de tanta import\u00e2ncia. A Igreja necessita de sacerdotes capazes de discernir e de ensinar a discernir.<\/p>\n\n\n\n

Esta \u00e9 tamb\u00e9m uma das raz\u00f5es de ser da Funda\u00e7\u00e3o CARF: colaborar para que os seminaristas, os sacerdotes diocesanos e os religiosos de todo o mundo recebam uma forma\u00e7\u00e3o integral que lhes permita servir melhor a Igreja e as pessoas que Deus coloca no seu caminho.<\/p>\n\n\n\n

Encontrar Deus em todas as coisas<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Talvez a frase que melhor resume a espiritualidade de S\u00e3o In\u00e1cio seja uma das mais conhecidas da tradi\u00e7\u00e3o inaciana: encontrar Deus em todas as coisas. Isto n\u00e3o significa que tudo seja igual ou que qualquer decis\u00e3o conduza automaticamente a Deus. Significa aprender a descobrir a Sua presen\u00e7a no trabalho, na fam\u00edlia, nos estudos, no servi\u00e7o aos outros e tamb\u00e9m nas dificuldades.<\/p>\n\n\n\n

Este olhar transforma a vida quotidiana num local de encontro com Cristo e faz com que cada dia seja uma nova oportunidade para responder ao seu apelo.<\/p>\n\n\n\n

\"Iglesia
Igreja de Santo In\u00e1cio de Loyola, em Roma.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

S\u00e3o In\u00e1cio continua a ensinar-nos a ouvir Deus<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Mais de cinco s\u00e9culos ap\u00f3s a sua convers\u00e3o, S\u00e3o In\u00e1cio de Loyola continua a ajudar milh\u00f5es de crist\u00e3os a tomar decis\u00f5es com liberdade, paz e confian\u00e7a. O seu legado recorda-nos que Deus continua a falar ao cora\u00e7\u00e3o humano. Mas, para ouvir a Sua voz, s\u00e3o necess\u00e1rios sil\u00eancio, ora\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e o desejo sincero de procurar a verdade.<\/p>\n\n\n\n

Numa sociedade repleta de est\u00edmulos e pressa, o discernimento inaciano continua a ser um convite para fazer uma pausa, olhar para dentro de si e perguntar-se com humildade: \u00abSenhor, o que queres de mim?\u00bb. \u00c9 uma pergunta que pode mudar uma vida. Tal como mudou para sempre a vida daquele soldado ferido que acabou por se tornar um dos grandes santos da Igreja.<\/p>\n\n\n\n

O que \u00e9 o discernimento?<\/strong> Palavras do Papa Francisco sobre o discernimento.<\/p>\n\n\n\n

\n

Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s:

Hoje iniciamos um novo ciclo de catequese: j\u00e1 conclu\u00edmos a\u00a0catequese sobre a velhice<\/a>, iniciamos agora um novo ciclo sobre o tema do\u00a0discernimento<\/em>.

O discernimento \u00e9 um ato importante que diz respeito a todos, pois as escolhas s\u00e3o uma parte essencial da vida. Discernir as decis\u00f5es. Escolhe-se a comida, a roupa, um curso, um emprego, uma rela\u00e7\u00e3o. Em todas elas concretiza-se um projeto de vida e tamb\u00e9m se concretiza a nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus.<\/p>\n\n\n\n

No Evangelho, Jesus fala do discernimento recorrendo a imagens retiradas da vida quotidiana; por exemplo, descreve o pescador que seleciona os peixes bons e descarta os maus; ou o comerciante que sabe identificar, entre muitas p\u00e9rolas, aquela que tem maior valor. Ou aquele que, ao arar um campo, encontra algo que se revela ser um tesouro (cf. Mt<\/em> 13,44-48).<\/p>\n\n\n\n

\u00c0 luz destes exemplos, o discernimento apresenta-se como um exerc\u00edcio de intelig\u00eancia<\/em>e tamb\u00e9m de habilidade<\/em> e tamb\u00e9m de ir\u00e1<\/em>, para aproveitar o momento favor\u00e1vel: estas s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para fazer uma boa escolha. \u00c9 necess\u00e1rio intelig\u00eancia, habilidade e tamb\u00e9m vontade para fazer uma boa escolha. <\/p>\n\n\n\n

E h\u00e1 tamb\u00e9m um custo necess\u00e1rio para que o discernimento seja efetivo. Para desempenhar a sua profiss\u00e3o da melhor forma poss\u00edvel, o pescador tem em conta a fadiga, as longas noites no mar e o descarte de uma parte das capturas, aceitando uma perda de lucros em benef\u00edcio dos destinat\u00e1rios. O comerciante de p\u00e9rolas n\u00e3o hesita em gastar tudo para comprar aquela p\u00e9rola; e o mesmo faz o homem que se deparou com um tesouro. Situa\u00e7\u00f5es inesperadas e imprevistas em que \u00e9 imprescind\u00edvel reconhecer a import\u00e2ncia e a urg\u00eancia de uma decis\u00e3o que tem de ser tomada. <\/p>\n\n\n\n

Cada um deve tomar as suas pr\u00f3prias decis\u00f5es; n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que as tome por n\u00f3s. Numa determinada altura, os adultos, enquanto pessoas livres, podem pedir conselho, refletir, mas a decis\u00e3o \u00e9 sua; n\u00e3o se pode dizer: \u00abPerdi isto porque foi o meu marido, a minha mulher ou o meu irm\u00e3o que assim decidiu\u00bb: n\u00e3o! Tem de ser o senhor a decidir, todos t\u00eam de decidir, e \u00e9 por isso que \u00e9 importante saber discernir<\/em>: para tomar uma boa decis\u00e3o, \u00e9 preciso saber discernir.<\/p>\n\n\n\n

O Evangelho sugere outro aspeto importante do discernimento: envolve os sentimentos<\/em>. Aquele que encontrou o tesouro n\u00e3o tem qualquer dificuldade em vender tudo, de t\u00e3o grande que \u00e9 a sua alegria (cf. Mt<\/em> 13,44). <\/p>\n\n\n\n

O termo utilizado pelo evangelista Mateus<\/a> denota uma alegria muito especial, que nenhuma realidade humana pode proporcionar; e, de facto, reaparece em muito poucas outras passagens do Evangelho, todas elas relacionadas com o encontro com Deus.\u00a0<\/p>\n\n\n\n

\u00c9 a alegria dos Reis Magos quando, ap\u00f3s uma longa e penosa viagem, voltam a ver a estrela (cf. Mt<\/em> 2,10); \u00e9 a alegria das mulheres que regressam do sepulcro vazio ap\u00f3s terem ouvido o an\u00fancio da ressurrei\u00e7\u00e3o por parte do anjo (cf. Mt<\/em> 28,8). \u00c9 a alegria daqueles que encontraram o Senhor. Tomar uma bela decis\u00e3o, uma decis\u00e3o acertada, leva-o sempre a essa alegria final; talvez, ao longo do caminho, tenha de passar por algum momento de incerteza, de reflex\u00e3o e de procura, mas, no final, a decis\u00e3o acertada recompensa-o com a alegria.<\/p>\n\n\n\n

No\u00a0Julgamento Final<\/em>, Deus conceder-nos-\u00e1 o discernimento \u2013 o grande discernimento. As imagens do agricultor, do pescador e do comerciante s\u00e3o exemplos do que acontece no Reino dos C\u00e9us, um Reino que se manifesta nas a\u00e7\u00f5es quotidianas da vida, que nos exigem que tomemos uma posi\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n

\u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o importante saber discernir: as grandes escolhas podem surgir de circunst\u00e2ncias que, \u00e0 primeira vista, parecem secund\u00e1rias, mas que acabam por ser decisivas. Por exemplo, pensemos no primeiro encontro de Andr\u00e9 e Jo\u00e3o com Jesus, um encontro que nasce de uma simples pergunta: \u00abRabi, onde moras?\u00bb \u2014 \u00abVenham e ver\u00e3o\u00bb (cf. Jn<\/em> (1,38-39), diz Jesus. Uma troca de palavras muito breve, mas que marca o in\u00edcio de uma mudan\u00e7a que, passo a passo, ir\u00e1 marcar toda uma vida. Anos mais tarde, o evangelista continuar\u00e1 a recordar aquele encontro que o mudou para sempre, e recordar\u00e1 tamb\u00e9m a hora: \u00abEram cerca das quatro da tarde\u00bb (v. 39). \u00c9 a hora em que o tempo e o eterno se encontraram na sua vida. <\/p>\n\n\n\n

E numa decis\u00e3o boa e correta, a vontade de Deus encontra-se com a nossa vontade; o caminho presente encontra-se com o eterno. Tomar uma decis\u00e3o correta, ap\u00f3s um percurso de discernimento, \u00e9 realizar este encontro: o tempo com o eterno.<\/p>\n\n\n\n

Portanto: o conhecimento, a experi\u00eancia, o afeto, a vontade: s\u00e3o alguns elementos indispens\u00e1veis do discernimento. Ao longo destas catequeses, iremos conhecer outros, igualmente importantes.<\/p>\n\n\n\n

O discernimento \u2013 como j\u00e1 referi \u2013 implica um\u00a0esfor\u00e7o<\/em>. Segundo a B\u00edblia, n\u00e3o temos diante de n\u00f3s, j\u00e1 pronta, a vida que devemos viver: N\u00e3o! Temos de decidir constantemente, de acordo com as realidades que se nos apresentam. Deus convida-nos a avaliar e a escolher: criou-nos livres e deseja que exer\u00e7amos a nossa\u00a0liberdade<\/em>. Por conseguinte, discernir \u00e9\u00a0\u00e1rduo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n

J\u00e1 pass\u00e1mos por esta experi\u00eancia muitas vezes: escolher algo que nos parecia bom e que, afinal, n\u00e3o o era. Ou saber qual era o nosso verdadeiro bem e n\u00e3o o escolher. <\/p>\n\n\n\n

O homem, ao contr\u00e1rio dos animais, pode cometer erros, pode n\u00e3o querer fazer as escolhas corretas. A B\u00edblia demonstra-o desde as suas primeiras p\u00e1ginas. Deus d\u00e1 ao homem uma instru\u00e7\u00e3o precisa: se quiser viver, se quiser desfrutar da vida, lembre-se de que \u00e9 uma criatura, de que n\u00e3o \u00e9 o crit\u00e9rio do bem e do mal, e de que as escolhas que fizer ter\u00e3o consequ\u00eancias para si, para os outros e para o mundo (cf. Gn<\/em> 2,16-17); pode transformar a terra num magn\u00edfico jardim ou pode transform\u00e1-la num deserto de morte. <\/p>\n\n\n\n

Uma li\u00e7\u00e3o fundamental: n\u00e3o \u00e9 por acaso que este seja o primeiro di\u00e1logo entre Deus e o homem. O di\u00e1logo \u00e9 o seguinte: o Senhor confia a miss\u00e3o, \u00abdeves fazer isto e aquilo\u00bb; e o homem, a cada passo que d\u00e1, deve discernir que decis\u00e3o tomar. O discernimento \u00e9 essa reflex\u00e3o da mente e do cora\u00e7\u00e3o que devemos fazer antes de tomar uma decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

O discernimento \u00e9 desgastante, mas indispens\u00e1vel para viver. Exige que eu me conhe\u00e7a a mim pr\u00f3prio, que saiba o que \u00e9 bom para mim aqui e agora. Acima de tudo, exige uma rela\u00e7\u00e3o filial com Deus<\/em>. Deus \u00e9 Pai e n\u00e3o nos deixa sozinhos; est\u00e1 sempre disposto a aconselhar-nos, a encorajar-nos e a acolher-nos. <\/p>\n\n\n\n

Mas nunca imp\u00f5e a sua vontade. Porqu\u00ea? Porque quer ser amado e n\u00e3o temido. E Deus tamb\u00e9m quer que sejamos filhos e n\u00e3o escravos: filhos livres. E o amor s\u00f3 pode ser vivido em liberdade. <\/p>\n\n\n\n

Para aprender a viver, \u00e9 preciso aprender a amar e, para tal, \u00e9 necess\u00e1rio discernir: o que posso fazer agora, perante esta alternativa? Que isso seja um sinal de mais amor, de maior maturidade no amor. <\/p>\n\n\n\n

Pe\u00e7amos que o Esp\u00edrito Santo nos guie! Invoquemo-Lo todos os dias, especialmente quando tivermos de tomar decis\u00f5es. Obrigado.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n

Por que raz\u00e3o o discernimento \u00e9 essencial na forma\u00e7\u00e3o de um sacerdote<\/strong><\/p>\n\n\n\n

O Papa Francisco definia o discernimento como um ato que diz respeito a todas as pessoas, pois toda a vida \u00e9 marcada por decis\u00f5es que moldam o pr\u00f3prio caminho. N\u00e3o se trata apenas de escolher entre o bem e o mal, mas de reconhecer, com a ajuda de Deus, qual \u00e9 a resposta mais fiel ao apelo que Ele dirige a cada um. Discernir \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, aprender a interpretar a pr\u00f3pria vida \u00e0 luz do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n\n\n\n

Esta capacidade reveste-se de especial import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o de um sacerdote. Antes de acompanhar os outros no seu caminho de f\u00e9, o seminarista deve aprender a ouvir a voz de Deus na sua pr\u00f3pria vida. A voca\u00e7\u00e3o sacerdotal n\u00e3o nasce de um impulso passageiro nem de um projeto pessoal, mas do encontro entre a liberdade humana e a iniciativa amorosa de Deus. Por isso, requer tempo, ora\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio e um acompanhamento espiritual que o ajude a interpretar o que se passa no seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

O discernimento, explica o Papa Francisco, envolve toda a pessoa: a mem\u00f3ria, a intelig\u00eancia, a vontade e os sentimentos. Conhecer-se a si pr\u00f3prio \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para reconhecer como o Senhor age e para evitar que o ru\u00eddo, a pressa ou os pr\u00f3prios interesses ocultem a Sua voz.<\/p>\n\n\n\n

Neste processo, a ora\u00e7\u00e3o ocupa um lugar insubstitu\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 apenas um momento de reflex\u00e3o pessoal, mas o espa\u00e7o onde o futuro sacerdote cultiva uma rela\u00e7\u00e3o de amizade com Cristo. Quanto mais profunda for essa amizade, mais f\u00e1cil se torna reconhecer aquilo que conduz ao Evangelho e distingui-lo daquilo que o afasta. O discernimento n\u00e3o procura respostas autom\u00e1ticas, mas sim um olhar interior capaz de descobrir a presen\u00e7a de Deus mesmo nas circunst\u00e2ncias mais comuns.<\/p>\n\n\n\n

S\u00e3o In\u00e1cio de Loyola compreendeu esta verdade a partir da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Descobriu que nem todos os pensamentos deixam a mesma marca no cora\u00e7\u00e3o: alguns produzem uma satisfa\u00e7\u00e3o imediata que rapidamente desaparece, enquanto outros geram uma paz profunda, uma alegria duradoura e um desejo mais intenso de amar e servir. Aprender a reconhecer esses movimentos interiores continua a ser um dos ensinamentos mais valiosos da espiritualidade inaciana e uma ferramenta fundamental para a forma\u00e7\u00e3o daqueles que ser\u00e3o pastores da Igreja.<\/p>\n\n\n\n

\u00c9 por isso que a Igreja atribui tanta import\u00e2ncia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o integral dos seminaristas. N\u00e3o basta uma excelente prepara\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica; \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio educar o cora\u00e7\u00e3o para que o sacerdote possa ouvir com liberdade a vontade de Deus e, mais tarde, ajudar os outros a descobri-la. Um pastor que tenha aprendido a discernir ser\u00e1 capaz de acompanhar um jovem que procura a sua voca\u00e7\u00e3o, um casal que atravessa dificuldades ou uma pessoa que deseja reencontrar-se com a f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n

A miss\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o CARF insere-se precisamente neste horizonte. Ao apoiar a forma\u00e7\u00e3o humana, espiritual, intelectual e pastoral de seminaristas, sacerdotes diocesanos e religiosos de todo o mundo, contribui para que a Igreja disponha de pastores bem preparados, capazes de anunciar o Evangelho com fidelidade e de acompanhar cada pessoa no discernimento do chamamento que Deus lhe dirige.<\/p>\n\n\n\n


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\u00cdndice<\/strong><\/h4>